Ela era ela

Friday, September 29, 2006

O mote eleitoreiro



Hoje, teoricamente, acaba a tirania dos santinhos. Contabilizei por alto uma média do número de publicações de campanha colocados por dia no meu carro nos estacionamentos da cidade: 6 do trabalho, 4 na UnB, 4 na academia e 5 em bares e restaurantes. Isso significa que, em média, meu carro chegou a ser premiado com 19 panfletos por dia. Fora o que não foi contabilizado ... esse mês ainda andei pela torre de tv, festas com estacionamento ao ar livre, cinema nos fins de semana e trabalhei num jantar de um político desprezível (OVERDOSE, socorro). Considerando que a euforia gráfica foi intensificada quando faltava um mês de eleição, são quase trinta dias de divulgação - será que o jejum eleitoral vai ser respeitado? - e mais de 600 papéis incovenientes bombardeando uma eleitora.

Passemos então ao conteúdo. Estabeleci alguns critérios para o trato dos materiais de campanha "recebidos":

- Não ler o mesmo folder mais de uma vez, a não ser que seja de um dos meus candidatos;
- Nunca ler nada com a imagem de um homem de terno completamente branco, tenho muito medo deles (geralmente são candidatos do PP);
- Desconsiderar aqueles com sobrenome Roriz. Uma questão de princípios. Dedé, Paulo, Jacqueline, o próprio e afins... sorry;
- Privilegiar a análise dos termos em negrito, afinal deve haver algum um propósito nisso;
- Observar, além das propostas e dos clichês, a diagramação caótica dos panfletos. Quem fizer a mais escatológica ganha o prêmio inelegível do ano;
- Para publicações de tamanho A4 - ou maior que isso, eu já vi! - sentir pena do candidato. Pra esse tipo de público-alvo, motoristas irritados com tanta propaganda política colocada equivocadamente em seus veículos, o efeito do mini-jornal é próximo de zero no approach.
- Considerar prepotentes os candidatos que distribuem, além dos "informativos", adesivos. O cara acha que é tão irresistível assim a ponto de despertar em mim um desejo incontrolável de propagandear a sua candidatura?
- Corrigir mentalmente todos os erros de português dos panfletos, atribuindo mais pontos negativos aos básicos, e encaixar seus canditados na categoria Potencialmente Semi-analfabetos e Indignos;
- Depois da contemplação forçada, colocar tudo no lixo.

Impossível não fazer algumas considerações sobre a publicidade das campanhas eleitorais. O que me chamou a atenção disparado foi a característica mais ressaltada pelos candidatos atualmente, diante do contexto de abundante corrupção evidente: "meu nome nunca esteve envolvido em nenhum escândalo". Maltido diferencial! O certo e o ideal passou a ser artigo de luxo, moeda valiosa na disputa pelo voto. Quer dizer, hoje temos que agradecer ao fato do cara não se meter em sujeira. Políticos queridinhos, deixa eu situar vocês: isso não é nada além do básico. Tratar o dinheiro público com respeito é básico, exercer o seu mandato honestamente é o mínimo diante da responsabilidade tão grande que é legislar pra sociedade. Então não me venham com churumelas, eu não vou baixar o meu nível de exigência nem vangloriar nenhum mané porque simplesmente o básico foi feito, não é nessa vida que vou ser adepta da filosofia "rouba mas faz" e suas derivações. Imagina o que o meu chefe vai dizer se eu for pedir um aumento pra ele com o seguintes argumentos: "Mas eu não sou analfabeta! Eu sempre chego na hora certa! Eu não durmo nem espalho o caos durante o expediente!"...

Tem aqueles clichês históricos, tristes, mas que dão toda a cara de uma eleição. Sem eles, talvez até nos sentiríamos desnortead@s. Primeiro vem a promessa impossível - não vou usar "mirabolante" porque uma candidata pouco digna daqui adora essa palavrinha ... Gente, sai dessa, ninguém mais dá moral pra isso! Pelo amor de Deus, a UnB tá ralando pra pagar os professores e manter a limpeza digna dos banheiros e GERAL prometendo 25 mil campi novos! Detalhe, fast-building né, em menos de 4 anos. O que, debate conceitual sobre o assunto, verificar a viabilidade desses projetos, pra quê? Transformam a universidade pública em outra moeda de campanha ... P*&#@! Pela primeira vez eu senti vontade de assistir TV com o magnífico. Até ele deve ter ficado chocado. Saindo da esfera candanga, outra vez um candidato (MT, se não me engano) propôs encanar o mar. Piscina de água salgada no planalto central, e com importação da legítima areia de praia. O mareoduto ia ligar Cuiabá ao Rio ... pô, absurdo por absurdo bota esse cano na Bahia, leva uma água quentinha praquele calorzinho bom de matar um.

Preciso reconhecer que houve alguns avanços. A maioria do material que eu vi não tem mais aquela cara de sindicato dos anos 80 - talvez porque os partidos seguidores dessa linha não têm recursos para elaborar publicações impressas. Atribuo isso ao efeito borboleta da ação Duda Mendonça, essencial para a vitória do atual presidente em 2002. A construção de uma imagem plural e sem vícios clichês foi, na minha opinião, o fator decisivo daquela eleição. Só a Regina Duarte ainda sentia medo do Lula. Vários candidatos aprenderam direitinho a lição, não só no que se refere à sua linha editorial dos panfletos, mas na própria condução da campanha. Não ouvi nem metade do que esperava sobre a quebra do sigilo do painel e, salvo o espetáculo da mídia em torno do dossiê, tentativa desesperada de evitar a reeleição do presidente, e a cobertura totalmente parcial da mídia, os ataques a respeito do mensalão foram muito mais brandos do que a atmosfera pré-eleitoreira indicava. Em geral, foram campanhas vocacionadas por propostas. Aqui em Brasília, quando Arlete e Abadia tentaram sair da linha light e partir pro ataque, Fátima Passos, a célebre candidata do PSDC (E E E maelll um-de-mo-cra-tra-cris-tão) se manifestou: "Vamos fazer um debate de idéias, e não de acusações ... aos 12 anos realizei um sonho, comprei minha primeira calça jeans!". Não consigo me conter escrevendo isso ...

Entonces, depois de toda essa reflexão, não poderia deixar de sugerir algumas idéias para a campanha eleitoral de 2010:

- As coligações podiam pensar em maneiras criativas de lidar com a rejeição do seu material de campanha. Junto com os santinhos, podiam distribuir um daqueles saquinhos de lixo que você coloca na marcha do carro, pra facilitar o escoamento;
- Vermelho, verde e azul já era. Essa moda RGB tem quer ser substituída pelo espectro CMYK. Que ótimo seriam as campanhas pink, amarelas, púrpuras! Asseguraria mais tempo de leitura aos panfletos.
- POR FAVOR, vamos acabar com isso de um candidato apresentando outro. Isso no mínimo é um desafio à inteligência do eleitor. Sou super a favor da inclusão dos portadores de necessidades especiais na esfera pública sem cotas, mas acredito que a mudez dos possíveis deputados deva ser publicizada. Aliás, isso motivaria propostas de campanha muito mais interessantes.
- Os trocadilhos devem ser reinventados. Entre nome e número (Candidato do PFL: "Fulano 23123, depois do Arruda 1-2-3!"), pai e filha ( Jacqueline Roriz: "Papai Roriz disse que o sonho da vida dele é ter uma filha na política..." não fode!), bandeira e campanha (Candidato pastor evangélico: "eu vou botar aquele congresso de joelhos"), característica física e atuação (Candidata anã: "Pequena no tamanho, grande na força de vontade!") e por aí vai;
- Pelo amor de Deus, não é Luiza Helena... É HELOÍSA HELENA!;
- Finalmente e mais importante: chega de tanto marketing pessoal fictício, promessas insalubres, irresponsabilidade com bem público. A sociedade não aguenta mais tantos picaretas, essa agressão é gratuita e mexe com a auto-estima do povo. Não queremos nada além do essencial: respeito, honestidade, compromisso e projetos transformadores que contribuam para diminuir a injustiça social que impera nesse país. Os manés que estão pensando em se eleger pra mamar nas tetas do estado e operar a máquina pública em seu favor ... são uns manés mesmo, pobres de espírito, carrascos sociais, crápulas engravatados de plantão! Se a justiça convencional não for eficiente para puni-los como merecem, os astros dão um jeito.


Em 2014 votem em mim!